09/10/2009 - As Lições da Pedra - Dez anos sem João Cabral de Melo Neto

Por Frederico Barbosa
 
Os poetas não têm biografia. Sua biografia é sua obra. Essas palavras do diplomata e poeta mexicano Octavio Paz ecoam no depoimento pessoal do poeta e diplomata pernambucano João Cabral de Melo Neto: Eu não tenho biografia. Minha biografia é: em tanto de tanto foi para tal lugar. Em tanto de tanto foi para tal lugar, essa é a biografia que tenho.

A obra de João Cabral se inicia, a rigor, com a publicação, em 1942, do seu primeiro livro de poemas, Pedra do Sono, de nítida influência surrealista, mas que já apresentava, como o percebeu o crítico Antonio Candido em resenha da época, um rigor construtivo herdado do cubismo. Conhece, a partir de 1940, no Rio de Janeiro, alguns dos mais importantes poetas brasileiros da geração de 30, como Murilo Mendes, Jorge de Lima, Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, a quem já dedicara o seu primeiro livro e dedicaria o seu livro seguinte, O Engenheiro (1945). Publicou, também, na Revista do Brasil, em 1943, a peça em prosa poética Os Três Mal-Amados, até hoje não encenada, que toma como mote o conhecido poema "Quadrilha", de Drummond.

Em 1945, sob grande influência do poeta e engenheiro pernambucano Joaquim Cardozo, publica O Engenheiro, livro em que apresenta os princípios da poesia do rigor, da clareza e da objetividade que marcariam toda a sua obra. Passaria, então, a ser conhecido como o "poeta-engenheiro", embora estivesse longe de abraçar tal profissão. Influenciado pelas ideias do arquiteto Le Corbusier, cujas palavras relacionadas à arquitetura, "machine à émouvoir" ("máquina de comover"), estampa como epígrafe do livro, e que são correlatas à definição de poesia dada por Paul Valéry como "machine du language" ("máquina da linguagem"), João Cabral de Melo Neto busca, a partir de então, uma poesia que não deixa de emocionar ou revelar o sonho, mas o faz com o equilíbrio e o rigor matemático e construtivo da engenharia.

É uma poesia que nenhum véu encobre, uma poesia das coisas concretas, do substantivo, que o poeta vai perseguir a partir de agora, tornando-se, assim, o mais rigoroso e exigente dos poetas da nossa literatura.

O diplomata começa, a partir de 1947, a perambular pelo mundo, ocupando diversos postos em sua carreira. De início, serve em Barcelona, onde conhece o pintor Miró, sobre o qual escreve um dos seus raros ensaios críticos e onde monta uma tipografia artesanal, O Livro Inconsútil, através da qual publica, além de vários livros de poetas brasileiros - como Manuel Bandeira - e espanhóis, seus livros Psicologia da composição (1947) e O Cão sem Plumas (1950). O primeiro, segundo João Cabral, um "livro teórico", volta-se inteiramente para a metalinguagem; enquanto o segundo já prenuncia o olhar do poeta que se volta para sua Recife natal, em especial o rio Capibaribe que a corta.

Em 1950 é removido para Londres, onde fica até 1952, quando é afastado da diplomacia, acusado de subversão e comunismo. Retorna ao Brasil para responder ao processo. Absolvido, permanece no país até 1956. Durante estes anos de "exílio interno", Cabral acrescenta à sua poética um componente novo: a preocupação social. Em poemas mais "comunicativos", mais "fáceis", como O Rio, escrito em 1953 e vencedor do Prêmio do IV Centenário de São Paulo (1954) e Morte e Vida Severina, escrito em 1954/55 e publicado na coletânea Duas Águas, de 1956, João Cabral de Melo Neto apresenta uma poesia mais narrativa, popular e voltada para os problemas sociais do Nordeste, mais especificamente de seu estado natal, Pernambuco.

Voltando à ativa no exterior a partir de 1956, tem uma carreira diplomática brilhante, servindo como cônsul-geral ou embaixador do Brasil em diversos locais, como Marselha, Genebra, Berna, Dacar, Quito, Honduras, Porto, etc. Aposenta-se em 1990 como embaixador, mesmo ano em que recebe o maior prêmio literário da língua portuguesa, o Prêmio Luís de Camões.

Em livros como Dois Parlamentos (1960), Quaderna (1960), Serial (1961), A Educação pela pedra (1966), Museu de Tudo (1975), A Escola das Facas (1980), Auto do frade (1984), Agrestes (1985), Crime na Calle Relator (1987), Sevilha Andando (1990) e Andando Sevilha (1994), o poeta foi abordando os temas mais diversos, como a própria poesia, a pintura, o futebol, suas memórias, a morte, a memória do Recife na morte de Frei Caneca, suas viagens, a sensualidade das sevilhanas, o sertão, etc. Sempre tendo a feminina e gentil Espanha - Sevilha à frente - e o masculino e árido Pernambuco para dar o tom na poesia rigorosa, consistente e ímpar que o "poeta-engenheiro" construiu desde a década de 40 até sua morte.

A morte de João Cabral, dez anos atrás, deixou um vazio profundo na poesia que busca se construir com rigor e objetividade, contra a poesia fácil, "dita profunda", verborrágica e sentimentaloide, de matizes românticos, que ainda predomina na mentalidade poética média do Brasil hoje. As ideias do "poeta do rigor" não são fáceis de assimilar. Movem-se contra a corrente do lugar-comum, contra a mitificação do fazer poético, contra o elogio da facilidade que predomina no universo cultural consumista de hoje.

Esta dificuldade em digerir as posições bem claras e radicais defendidas por Cabral tem levado, nestes anos que sucederam à sua morte, a tentativas bastante frequentes de deturpação das suas ideias e a leituras melífluas e mediocrizantes de sua obra. Muito se falou, desde então, que João Cabral, afinal, não era tão cerebral assim, que ele no fundo era lírico e até sentimental, que era emotivo e inspirado, etc. Ou seja, para elogiá-lo, muitos negam a própria essência da sua luta, das suas ideias difíceis de serem digeridas pelo senso comum, da sua obra consciente, antilírica e racional. De sua ojeriza por lugares-comuns como "inspiração", "dom" ou "talento". De seu elogio obstinado do suor e do trabalho.

É preciso lembrar sempre de que João Cabral era o que falava e escrevia. Honremos o poeta no aniversário de dez anos da sua morte lembrando das suas ideias e lutando com todas as forças contra as reiteradas tentativas de adocicá-lo, facilitá-lo, torná-lo mais palatável ao senso comum, embalá-lo com a mesma mediocridade e o mesmo sentimentalismo piegas que sempre combateu.

Poema escrito por Frederico Barbosa no dia da morte de João Cabral:

Pior do que a morte
para JC


O pior é que dizem: rezou.

Ele que sempre foi contra,
do contra, ateu,
agora que zerou,
creu?

Ele que sabia que a vida é coisa
de sempre não.
Sem fórmulas fáceis,
nem saídas para a dor
de cabeça
de pensar
de ser sem crer.

Ele que sabia que não há aspirina
contra o bolor.

Logo dirão que se inspirou,
e compôs de improviso
um soneto vendido,
dos que sempre enfrentou.
Dirão ainda que se converteu
e defendeu a vida devota,
a pacificação bovina,
a prédica dos pastores.
( Verbo e verba:
pragas velhas. )

E que se arrependeu do pecado
de ser exato, claro e enjoado.

Vida, te escrevo merda.
Às vezes fezes, mas sempre merda.
Fingida flor, feliz cogumelo,
caga e mela.
Sempre severa e cega
merda.

Triste é depender
de relatos carolas,
acadêmicos, cartolas.
Triste é depender
da leitura alheia,
fáceis falácias: farsas.

Triste é depender
dos olhos dos outros,
de voz de falsas sereias.

Triste é não poder mais
se defender.

Mas
um aqui, João,
incerto, grita
e insiste em não crer
na sua crença repentina,
que a morte (sua) desminta a obra (sua) vida.

Um aqui, João,
o tem por certo:
é mais díficil o não
crer, não
ceder, não
descer, não
conceder. Não.

Não, não orou.

Frederico Barbosa
10/10/99


Veja na fonte: Revista Brasileiros








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